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Quem eu sou

Meu nome é Francisco Evangelista, cearense de nascimento, mas desde os 9 meses de idade criado numa cidade operária do Estado de São Paulo: Americana. Me tornei educador aos 9 anos de idade quando ensinava a cartilha para um aluno da 1a. série. Eu cursava a 3a. série do primário quando dei as minhas primeiras aulas. Comecei a trabalhar na Indústria Têxtil aos 8 anos, numa fábrica de fundo de quintal que pertencia ao meu padrinho de crisma. Na primeira vez que monitorei uma máquina dentro de uma tecelagem, tive que subir num caixote devido a minha estatura. Aos 12 anos tirei minha carteira de trabalho e comecei a trabalhar como ajudante de laboratório químico numa tinturaria.

Em 1979, aos 16 anos, entrei para o seminário salesiano na cidade de Pindamonhangaba, recebendo forte influência na minha vida posterior, sobretudo na vida intelectual, pois o gosto pela leitura, pelo estudo, pela música e pela cultura em geral, vem desta época. O seminário me lapidou, pois pela primeira vez tive contato com uma biblioteca e com livros. Na casa de meus pais não havia nenhum livro ou qualquer estímulo à leitura. O contato diário com a música e com os livros foi determinante na minha formação. Era um prazer entrar numa biblioteca e sentir o cheiro dos livros nas prateleiras. Era emocionante poder ir à biblioteca, poder tocar e manusear tantos e variados livros, poder pegar e ler qualquer livro que me desse vontade de ler. Eu comia os livros, os saboreava como pratos gostosos que nunca cansamos de provar. Somado a música, ao teatro, a espiritualidade, ao esporte, o seminário teve influência marcante em minha vida. Depois dos meus 16 anos de idade, nunca mais fui o mesmo.

A formação religiosa alterou profundamente minha visão de mundo, causando inclusive dificuldades quando saí do seminário e precisando me adaptar ao mundo externo. Se por um lado o seminário tinha me preparado para a vida intelectual e religiosa, não tinha me preparado para viver a realidade concreta das relações sociais. Quando deixei o seminário me sentia como um peixe fora da água, demorou algum tempo para eu me acostumar com a vida fora dos muros do seminário.

Retomei a vida profissional trabalhando num banco: o Mercantil de São Paulo na cidade de Americana. Trabalhei neste banco entre os anos de 1982 a 1986. Odiava a vida de bancário e sobretudo a postura dos colegas de trabalho. Foi um período desgastante, pois queria continuar os estudos, fazer faculdade e o horário do expediente não ajudava e muito menos o salário que recebia. É desta época também momentos de grande conflito na família de meus pais. Sendo o filho mais velho sempre assumia as responsabilidades que normalmente cabe aos pais assumirem. O período de 82 a 86 foi marcado pelo cuidado com a família, principalmente no aspecto econômico, pois todo o salário de meu trabalho era para as despesas da casa. Sendo assim, fiquei 5 anos sem estudar, esperando a oportunidade para fazer a faculdade. Foi também um período de profunda crise religiosa e de valores, eu estava à procura de um novo sentido para minha vida, me sentia vazio, oco por dentro e ainda por cima levando a vida de bancário.

Em 1987, quando minha irmã mais nova completou 18 anos, decidi retomar os estudos. Tinha então 23 anos e me sentia desobrigado com a família, moral e economicamente falando, parti para a cidade de Campinas para fazer o curso de filosofia na Universidade Católica desta cidade. Apesar da proximidade com a cidade de Americana, decidi mudar com “mala e cuia” para poder me dedicar ao curso universitário. Me ajudou muito ter conseguido bolsa de estudo quando me tornei funcionário da própria Puc-Campinas logo no início do curso de filosofia em março de 1987. A bolsa me deu tranqüilidade para poder me manter economicamente na cidade, já que não conhecia ninguém aqui. Os anos em que fui aluno do curso de filosofia abriram novas perspectivas e novos horizontes para a minha vida. Foram anos de intensas buscas no âmbito afetivo, intelectual e profissional. A filosofia me “virou de ponta cabeça”, me fez repensar os valores que trazia, principalmente os valores de minha formação religiosa. A filosofia me filtrou, me purificou, me batizou para outro estilo de vida. Vivi intensamente os anos em que estudava filosofia. Nasci de novo.

Em 1990 eu completaria 27 anos e terminaria em dezembro o curso de filosofia. A questão que se apresentava naquele momento era o que fazer após o término do curso. Iria direto para a pós-graduação ou faria outra faculdade? Ao final do curso eu tinha a sensação de que era preciso me aprofundar nos aspectos pedagógicos da minha futura profissão de professor de filosofia, pois o que se discutia na academia era não só à volta da filosofia para o colegial, mas também o que e como ensinar filosofia nas aulas de filosofia. Decidi então fazer o curso de Pedagogia na própria Puc-Campinas entre os anos de 1991 a 1994.

Terminado o curso de filosofia, comecei minha carreira como educador na Escola Salesiana São José em 1991 como professor de Ensino Religioso Escolar nos cursos técnicos da Etec. Procurei modificar as aulas de E.R. dando um caráter mais filosófico aos conteúdos, o que agradou aos alunos e à coordenação da escola. Fui professor de E.R. de 1991 a 2001, período de grande aprendizagem para a minha vida de educador. De 1994 em diante acumulei o trabalho como professor do Ensino Médio e no Ensino Superior, tendo então que pensar em fazer o Mestrado, exigência legal para o trabalho pedagógico em nível superior.

Quando freqüentava o último ano do curso de Pedagogia em 1994 surgiu a oportunidade de iniciar o trabalho pedagógico como professor em nível superior na ainda Faculdade Salesiana de Tecnologia de Campinas.

Fato marcante em minha vida acadêmica ocorreu no ano de 1993, quando fui procurado pela coordenadora do Ensino Fundamental da Escola Salesiana São José que me propunha iniciar um novo projeto com os alunos de 1a. a 4a. séries. O projeto era de Filosofia para Crianças, algo absolutamente novo para mim e para as escolas de Campinas e região na época. Fiz a formação de monitor no Centro Brasileiro de Filosofia para Crianças(CBFC) na cidade de São Paulo em janeiro de 1994 e no mesmo ano montei um curso de formação para os professores da Escola Salesiana São José. Depois de um ano de estudos intensos implantamos o programa em 1995 nas primeiras séries do Ensino Fundamental, sendo que atualmente, a filosofia(Educação para o Pensar) está presente da pré-escola ao ensino técnico. O trabalho tem repercussão e a escola passa a ser assediada por pessoas interessadas pelo projeto. Organizei então nos anos de 1997, 1998, 1999 encontros para refletir teoricamente o que fazíamos na escola e ao mesmo tempo, apresentar oficinas práticas para os interessados, com amostragem do que acontecia nas aulas de filosofia para crianças. No ano de 2000 o encontro foi acampado pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo/Unidade de Campinas e se torna um Encontro de Educação. Neste mesmo ano, incentivado pela Unisal e pelo meu trabalho como educador no Ensino Médio, aproximo o projeto de Filosofia para Crianças/Educação para o Pensar ao projeto de Educação Social da Unisal/Campinas e estes dois projetos passam a ser o eixo dos encontros desde então. No ano de 2001 tivemos a presença de 1.200 educadores de Campinas e região presentes no evento, boa parte deles vindos das escolas públicas. Até hoje, foram realizados 14 eventos para educadores, totalizando a participação de 7 mil professores.

Em 1995 começo uma Especialização em Educação para o Pensar(filosofia para crianças) na PUC-SP onde outro fato é marcante na minha trajetória como educador: A morte de Paulo Freire. Eu estava na PUC no dia em que ele morreu (2 de maio de l997) e vivenciei as repercussões de sua morte de dentro daquelas paredes e daquele prédio em que ele tanto dignificou com sua presença e com seu trabalho. Além de sua morte, o que me causou forte impacto foi seus últimos escritos em vida, escritos à mão e que nos foi lido pelo professor Lorieri no mesmo dia 2 de maio. Era um comentário sobre a morte do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos que cito aqui dos trechos:

“que coisa estranha, brincar de matar índio, de matar gente. Fico a pensar aqui, mergulhado no abismo de uma profunda perplexidade, espantado diante da perversidade intolerável desses moços desgentificando-se, no ambiente em que decresceram em lugar de crescer”

“não é possível refazer este país, democratizá-lo, humanizá-lo, torná-lo sério, com adolescentes brincando de matar gente, ofendendo a vida, destruindo o sonho, inviabilizando o amor”

O texto lido pelo prof. Lorieri foi publicado depois no livro Pedagogia da Indignação pela editora da Unesp.

Estas palavras de Paulo Freire caíram como uma bomba na minha cabeça, pois se eu estava tão preocupado com as crianças num projeto de uma Educação para o Pensar, tendo como objetivos a emancipação intelectual, a construção coletiva do conhecimento e a formação da cidadania, era necessário também um projeto que estivesse dirigido aos alunos do Ensino Médio. Me senti desafiado em fazer alguma coisa, não poderia ficar sem fazer nada diante do comentário de Paulo Freire. Foi então que nasceu o projeto Ética e Cidadania, preocupado de um lado com a formação do professor e de outro com a formação do aluno. De 1997 em diante, as relações entre a ética e a educação tem sido o foco de minhas leituras, estudos e pesquisas. E foi com o projeto Ecopedagogia: os fundamentos filosóficos, éticos e políticos da prática pedagógica para a sustentabilidade, que cheguei ao Programa de Pós-Graduação em Educação(currículo) na PUCSP.

O que estudei no Mestrado:

O trabalho apresentado na PUC-Campinas em 2002, seguia a linha de pesquisa “Universidade e a Formação dos Professores para o Ensino Fundamental e Médio” e teve como objetivo refletir a importância do pensar e do agir ético na formação dos educadores, estes, vivendo num momento de desencanto na educação brasileira, buscando pelo estudo, mudanças nas práticas pedagógicas, contribuindo assim, pela transformação social, política e econômica do país e no próprio fazer cotidiano dos educadores.

O foco do estudo foi a formação dos professores que trabalham no Ensino Médio, priorizando uma cultura do pensamento em sala de aula e não a preocupação exclusiva na formação de super-educandos, dotados de todas as habilidades e competências para o mercado de trabalho, uma formação doutrinária, viabilizada por uma ética da aceitação passiva na sala de aula.

A metodologia utilizada foi a bibliográfica, em que se procurou avaliar e comparar o pensar e o agir eticamente através do estudo histórico de algumas obras de referência, destacando a importância do pensar e do agir eticamente na construção da sociedade, refletindo sobre a atual sociedade tecno-científica, questionando o poder da tecnologia e sua pretensão de dar respostas para todas as preocupações e necessidades humanas.

A pesquisa se baseou na proposta de formação dos professores na visão de Paulo Freire e de Matthew Lipman, vendo em Freire, a importância da dimensão política da prática pedagógica e, em Lipman, a importância pedagógica da investigação numa educação para o pensar e o agir eticamente.

Período de 2002 a 2006:

No ano de 2002, tivemos no encontro de educação em Campinas, 1600 educadores, mostrando para mim pessoalmente, e para a instituição que trabalho, a importância de se pensar e propor nas práticas pedagógicas que acontecem em sala de aula, conteúdos vindos da filosofia, que pudessem e buscassem a transformação social, que precisa a sociedade brasileira, após o período da ditadura militar. Neste sentido, um dos objetivos que busquei nestes anos de atuação como educador nos vários níveis de ensino, como também organizando eventos para os professores, focando sobretudo, os da escola pública, foi acreditar no caráter formativo da filosofia no trabalho do docente e como este poderia utilizar desta formação na condução de suas práticas em sala de aula.

Sendo assim, entre as aulas que lecionava e os eventos que organizava, incluindo o Café Filosófico que comecei a organizar em 2002, juntei 3 educadores em torno de mim(Cássio Donizete Marques, Marcos Francisco Martins e Paulo de Tarso Gomes) e propus a eles a elaboração de uma proposta de Ensino de filosofia para os níveis Fundamental e Médio, que foi escrita coletivamente pelo grupo, foi enviada e aprovada na reunião anual da Anped em 2005, e que no momento, estamos escrevendo materiais pedagógicos(paradidáticos) para alunos do 6 ano em diante (proposta está anexada).

Em 2008, recebo de Ivani Fazenda, o desafio de pensar e investigar minha própria experiência vivida ao longo destes 15 anos (1993-2008), que me assustou num primeiro momento, pois vindo de uma formação filosófica de cunho marxista católica e tendo na graduação de filosofia, professores que me instigaram a sempre me afastar do objeto que tivesse investigando, me vejo diante do sentido da proposta “intuitiva” da professora Ivani Fazenda, que no fundo, seria resgatar não somente a história construída e vivida, mas também, resgatar o sentido de minha atividade como educador oriundo da filosofia. No centro de tal investigação, estaria a filosofia e sua importância e necessidade na formação das crianças e dos jovens na sala de aula; e o papel e a importância na realização de Cafés Filosóficos, destinados ao público em geral, estes, focando a formação de pessoas interessadas nos conteúdos da Filosofia em geral, interessados em ouvir o pensamento dos filósofos em relação as questões vividas no cotidiano.